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Johnny Hooker, Ney Matogrosso e as nuances

O pior problema desse auê Johnny Hooker X Ney Matogrosso não é necessariamente nada do que ambos declararam. É isso virar, assim como quase tudo na internet, um FlaxFlu (ou seria Katy/Tay?) sem fim, onde cada um escolhe um lado e execra o outro, ambos dizendo que a carreira do artista que “falou merda” acabou ou que não tem valor algum, assim como sua respectiva importância no cenário de luta LGBTQ. Ambos tem seus motivos para terem falado o que falaram e mesmo sendo de gerações diferentes, fazem parte de uma luta que pode ter mudado ao longo das décadas, mas que não deveria estar fragmentada.

Ney pode não saber o que um “não sou gay, sou ser humano” pode representar em um momento em que a representação com todas as letras e acrônimos é necessária? Talvez, mas isso não apaga a sua importância na quebra de barreiras de gênero através da suas performances. Podemos não concordar com o que ele falou, mas não exigir que ele exerça um papel de uma forma que ele não quer. Ele vai exercer o que ele quiser e tudo bem! É diferente de se ele tivesse falado que a militância é uma bosta e o ativismo não serve pra nada. No entanto, num momento em que temos LGBTQs de gênero fluido ou agêneros se empoderando para que vivam suas existências não artísticas de forma transgressora, a militância formal é importante, pois legitima suas vivências, sexualidades e expressões de gênero fora dos palcos, das Avenidas Paulistas e dos Leblons.

Johnny Hooker foi reativo e errou a mão ao fazer textão criticando Ney? Ao meu ver, sim, mas não errou rude. Em tempos de empoderamento e novas ondas conservadoras, reagir rápido é necessário. Mas o perigo de ser de uma geração que sofre uma influência da cultura de internet muito grande é justamente ter que expôr uma opinião na mesma velocidade que um apertar de “like” ou “angry”. Corre-se o risco de ser um pouco injusto também. É difícil entender quem “fala merda” quando a gente sente que aquilo nos atinge em cheio, mas militância às vezes é muito mais ouvir do que falar. Às vezes é saber ouvir do outro algo que a gente não concorda. Mas a geração militante infamemente tida como “lacradora/pisamenos” se empodera também na base da reação, pois parte da sociedade tem se mostrado extremamente conservadora, essa talvez também reativa à nova liberdade sexual e empoderamento de minorias sexuais e de gênero com muitos direitos ganhos em lei na última década.

O que não dá pra continuar é esse ame ou odeie internético pois eventualmente ele também se expressa fora do computador, dentro de grupos que deveriam estar especialmente unidos. Uma coisa é ser LGBTQ militante e fazer oposição ferrenha a Bolsomitos, mas gente, não elejamos inimigos públicos número 1 dentro da própria comunidade.

Esse “textão” pode estar muito em cima do muro pra você que tomou partido. Muitas vezes tomar partido é não apenas importante como necessário. Mas em tempos de binarismo de opinião, tentar enxergar nuances no lugar de absolutismos e diversidades ao invés de divergências é crucial quando a discussão está acontecendo dentro da própria comunidade.

 

Kris Barz Mendonça

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