Artigos Ativismo Machismo Opinião Preconceito Racismo Realidade

Heteronormatividade, cultura, preconceito e mudança

Estou criando minhas tirinhas no café onde vou quase todas as manhãs. Uma mulher se aproxima e pergunta se pode pegar a cadeira extra da minha mesa pra levar para a dela. Prontamente, digo que sim. Depois de um tempo ela está indo embora, volta com a cadeira, me agradece e diz “estou trazendo de volta caso alguma menina bonita queira sentar do seu lado”. Eu sorrio e digo “na verdade um garoto seria bom”. Ela fica sem jeito, pede desculpas e diz que não deveria deduzir esse tipo de coisa. Eu falo que tudo bem e nós temos esse momento constrangedor de 5 segundos. Ninguém se ofendeu, ela tinha a melhor das intenções. Ela vai embora e eu volto ao meu trabalho.

O que aconteceu naquele momento é chamado de heteronormatividade. É a suposição de que a norma para a sexualidade das pessoas é heterossexual. Talvez isso aconteça porque estatisticamente a maioria das pessoas é heterossexual, mas há também um elemento de preconceito envolvido porque ser homossexual ainda é percebido como fora do padrão.

A heteronormatividade acontece em situações, níveis e de maneiras diferentes e, comumente, acha-se que ela é inofensiva. Em nossa sociedade, muitas vezes nossa sexualidade (e sua heterossexualidade compulsória) é decidida para nós antes mesmo de começarmos a desenvolvê-la. Isso acontece quando você diz que seu filho de 4 anos vai namorar ou casar com a filha do vizinho. Você faria tal suposição se o vizinho também tivesse um menino? Normas em nossa sociedade são comuns, mas isso não significa que não devamos tentar parar de reproduzir algumas delas.

Diferentes normas relacionadas a gênero e à sexualidade também se interlaçam. Da mesma forma, supõe-se que homens tradicionalmente masculinos não são gays, que mulheres que não se comportam de uma maneira tradicionalmente feminina são lésbicas ou que todas as mulheres sonham em casar, engravidar e ter filhos.

Todos esses pressupostos baseados em normas fazem parte de nossa cultura, sim. Todos nós pressupomos essas coisas em escalas diferentes porque nós crescemos com essa cultura. É um comportamento aprendido socialmente. Quando pressupomos baseados em uma norma, nem sempre se é intencionalmente preconceituoso, lgbtfóbico, machista e racista (certamente há exceções, mas eu não estou falando desse tipo de pessoa) e é aqui que a mudança tem que acontecer.

Não gostamos de admitir que temos comportamento preconceituoso ou privilégios e muitas vezes ficamos na defensiva quando somos informados disso. É importante não levar pro lado pessoal quando sua atenção é chamada, especialmente se você já se considera uma pessoa esclarecida e progressista. Você não precisa bater em um homossexual para ter comportamento homofóbico, assim como não precisa estuprar uma mulher para ser considerado machista ou querer a volta da escravidão para ser considerado racista. Esses preconceitos acontecem também de forma sutil, não apenas em seus extremos e é preciso tentar percebê-los.

Se você é um homem, as chances de ter comportamento machista são muito altas, mesmo se você for pró-feminismo. O mesmo vale para a sexualidade e raça. É a nossa cultura. Mas o que muitos não estão dispostos a aceitar é que a cultura é fluida e sempre foi. A cultura não constrói pessoas, as pessoas constroem a cultura (como disse de forma certeira Chimamanda Ngozi Adichie).

Mudar o comportamento nestas pequenas coisas exige esforço e é muito fácil ficar com raiva se você está do lado mais fraco, fora da norma. Canalizar a raiva é difícil, especialmente por conta daqueles que são intencionalmente preconceituosos, mas a empatia tem que vir de ambos os lados, porque algumas pessoas realmente não o fazem por mal. Se eles estiverem abertos o suficiente para te ouvir e refletir, vale a pena apontar um mau comportamento usando a sua empatia. Se você está num patamar de desconstrução que te permite perceber os preconceitos presentes na cultura, lembre-se de quando você ainda replicava certas suposições e preconceitos. Tendo em mente a cultura na qual a pessoa está inserida e tendo um sorriso em seu rosto, lembre-se que todos nós estamos inseridos nela de alguma forma.

A mudança acontece depois disso.

 

 

***
Quer ajudar o Torta a continuar criando tirinhas? Você pode ser o patrono do Torta de Climão, ler as tirinhas antes que todo mundo e  ter recompensas de acordo com a sua ajuda, inclusive sugerir temas para as próximas tirinhas! Apóie no nosso site do Patreon!

.

Aline Amizade Bruno Gabe

#114- Férias, praia e…

dezembro

Vote no Torta de Climão em inglês (Out&About) para o Ranking do Top 100 WebComics e ajude o Torta a alcançar e empoderar mais leitores LGBTs no mundo!

linklogo4

Quer ajudar o Torta a continuar criando tirinhas? Você pode ser o patrono do Torta de Climão, ler as tirinhas antes que todo mundo e  ter recompensas de acordo com a sua ajuda, inclusive sugerir temas para as próximas tirinhas! Apóie no nosso site do Patreon!

.

Notícias

Em breve…

QUENDA! Vem aí um grupo BABADEIRO que vai combater o crime de uma forma bem inusitada. Aguardem…

all-characterspt

.

Sexo Tomas

Sexy Tomás

Outro desenho que estava guardado. Financie o Torta e ajude o projeto a continuar pelo Patreon, adoraria fazer mais tirinhas do Torta e criar mais ilustrações como essa! Ajude AQUI: https://www.patreon.com/krisbarz

tomas

.

APPs Fitness Lino Sexo

Sexy Lino

Esse desenho tava guardado desde o ano passado. Fica aí um presentchinho pras bees que queriam ver o Lino de cuequinha. Financie o Torta e ajude o projeto a continuar pelo Patreon, adoraria fazer mais tirinhas do Torta e criar mais ilustrações como essa! Ajude AQUI: https://www.patreon.com/krisbarz

lino

.